O outro lado do medo (parte 3)

Era uma e meia da tarde. A cozinha da minha avó Cila estava transformada numa cantina. Para além de almoçarem os quatro integrantes das curtas metragens, ainda almoçavam a avó (obviamente), o tio e a minha prima mais velha. Foi um almoço tranquilo, sem muita agitação. Mas, na realidade, não previ o que aí vinha. Terminado o almoço, dei quinze minutos para as atrizes descansarem enquanto montava o cenário na sala de jantar. As gémeas, mal foram chamadas, dirigiram-se logo ao local. Já com a Mimi não foi bem assim. Pedi que fosse e a minha priminha, com os olhos colados ao ecrã do seu telemóvel, disse.
- Já vou.
Aí antevi o pior. Pedi à Mara e à Susana que fossem chamar a terceira atriz que continuava na sala a olhar para o telemóvel. O resultado fora o mesmo. O tio já se tinha ido embora. Assim, decidi usar a arma mais pesada de todas: a avó!
- Ó Mimi, vai lá fazer o teu papel! Comprometeste-te e agora levas até ao fim. É só mais uma cena... Fogo, estás mesmo viciada no telemóvel, raios partam!
Passados 5 segundos, Mimi já estava no set pronta para filmar. Fiz novamente aquilo que faço sempre antes de gravar: expliquei aos integrantes da história como iria ser gravada a cena, as movimentações que cada um teria de efetuar, a atenção às expressões faciais e aos pormenores de cada take, etc. Uma das questões era que as personagens iriam ser filmadas de pé, em círculo, e que isso iria envolver a gravação de muitos ângulos. Cansada, e ainda a olhar para o telemóvel, Mimi sugeriu gravar-se a cena que faltava com as personagens sentadas. Mara e Susana concordaram. Assim, decidi gravar uma parte com as "mini atrizes" sentadas e outra parte com elas já de pé, se não o enredo não faria sentido. Todos aceitaram. Estava na hora de gravar!
Até poderia escrever que as gravações da tarde decorreram com tranquilidade e tudo o que era previsto, se a Mimi não fosse tão imprevisível. Mais uma vez, a minha priminha decidiu demonstrar o seu lado mais rebelde ou, na perspetiva da jovem, o mais cool. Como? Continuo a achar que é melhor tal não ser escrito, pois há certas coisas que mais vale esquecer do que imortalizar...
Depois de terminadas as gravações, Mimi apercebeu-se do facto da história não estar "fechada" - ou seja, não ter um final definido. Assim, havia a hipótese de a história ter uma segunda parte. Mimi apresentou-me essa ideia, e gostei (assim como as gémeas). Peguei no meu caderno azul e numa caneta e comecei a pedir sugestões e ideias, enquanto gatafunhava e escrevia o mais rápido que as minhas mãos permitiam. "O outro lado do medo 2" seria uma realidade? Já passava das quatro e meia da tarde.

Excerto da curta metragem "O outro lado do medo"

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